MADRI, terça-feira, 31 de março de 2009 (ZENIT.org).- A iniciativa de Cristãos pela Europa (IXE), que agrupa organizações cristãs de 13 países europeus, acaba de fazer um convite aos cidadãos europeus por ocasião das próximas eleições europeias de junho de 2009; no mesmo, anima «a superar a crise e os desafios de nosso tempo para uma Europa mais unida, mais solidária e mais aberta ao mundo».
Reconhecendo que vivemos «momentos especialmente carregados de dificuldades», os que assinaram lançam um convite afirmando que «o Evangelho, junto com as tradições que se afirmam herdeiras do mesmo, propõe-nos interpretar os sinais dos tempos que nos convidam a mudar de vida, para tornar possível o advento de uma sociedade mais humana e mais respeitosa do bem-estar de todos».
«Só uma Europa unida – acrescentam – pode responder aos desafios atuais, expressando seus valores profundos de solidariedade, de justiça e de paz no mundo. É mister, pois, que tomemos consciência de nossa responsabilidade pessoal na construção da Europa.»
Os que assinaram o convite pedem, em primeiro lugar, que se ponham em prática «o mais breve possível as disposições do Tratado de Lisboa». Afirmam que, ainda que «no Tratado não se mencionem as raízes cristãs da Europa, acolhemos positivamente aquelas afirmações do mesmo que estão, de fato, inspiradas pelo pensamento e os valores cristãos. Assim, o Tratado expõe explicitamente, pela primeira vez, que a dignidade humana é o primeiro dos valores da Europa, antes da liberdade, da democracia e da igualdade».
Em segundo lugar, o convite anima a «enfrentar a globalização da economia, construindo uma Europa mais solidária». Neste sentido, indicam que, diante dos desequilíbrios da situação atual, «é necessário modernizar o modelo europeu da economia social de mercado».
«Deve-se reforçar sua vocação – acrescentam – a reconciliar a eficácia econômica com a justiça social, ou a igualdade de oportunidades com a solidariedade. Esta solidariedade não pode deter-se nas fronteiras nacionais, mas deve beneficiar-se da insubstituível experiência comunitária adquirida na Europa com o transcurso dos anos, e mostrar-se mais audaz na defesa dos interesses dos mais vulneráveis.»
Com relação à mudança climática, convidam a construir «uma Europa mais respeitosa das gerações futuras. (...) Como cristãos – afirmam –, cremos que a Criação nos foi confiada por Deus e que nós somos os ‘administradores’ e usuários responsáveis da mesma».
Em relação a outro dos desafios que o continente enfrenta, o demográfico, «proposto por sua vez pelo envelhecimento e a diminuição de nossas populações», convidam todos a «construírem uma Europa mais generosa».
Para mais informações:
http://www.initiative-ixe.eu/Llamada-a-los-ciudadanos-europeos.html
zenit.org
terça-feira, 7 de abril de 2009
Líderes das Igrejas cristãs na Terra Santa pedem apoio
Líderes das Igrejas cristãs na Terra Santa pedem apoio
Em um encontro com uma delegação ecumênica
JERUSALÉM, sexta-feira, 3 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Líderes de diferentes Igrejas cristãs reuniram-se com uma delegação ecumênica que visitou a Terra Santa e explicaram a cada vez mais difícil situação dos cristãos.
A delegação formada por uma equipe de «Cartas Vivas» –segundo informa o Conselho Mundial de Igrejas– foi informada sobre as muitas formas em que as igrejas da região cooperam para prestar serviços sociais e advogar pela paz e a justiça.
O grupo pode constatar que «a já escassa população de cristãos palestinos segue diminuindo e a vida torna-se cada vez mais difícil para os palestinos que vivem sob ocupação de Israel. O trabalho das igrejas está submetido a uma pressão crescente e necessita desesperadamente de apoio».
«Cartas Vivas» são pequenas equipes ecumênicas internacionais que viajam a lugares onde os cristãos lutam para superar a violência. Sua finalidade é expressar a solidariedade da família ecumênica e informar-se sobre a forma como as pessoas resolvem seus problemas.
Durante sete dias, a delegação reuniu-se com líderes de igrejas locais: o patriarca ortodoxo grego Teófilo III, o patriarca latino Fouad Twal, o bispo luterano Munib Younan, e o clérigo Robert Edmunds, representante do bispo anglicano Suheil Dawani.
Os líderes cristãos assinalaram entre os fatores que contribuem com as elevadas taxas de emigração dos cristãos palestinos «as políticas discriminatórias, a demolição de casas palestinas para dar lugar a assentamentos israelenses, as elevadas taxas de desemprego e a violência dos colonos israelenses».
O patriarca Fouad Twal comunicou o «amargo sentido de impotência entre os cristãos da Palestina», depois de 60 anos de ocupação. «Seguimos orando –afirmou– e cremos no poder da oração. Temos esperança na nova administração dos Estados Unidos, mas necessitamos que todos os países nos apoiem».
O patriarca Teófilo III disse que uma forte presença cristã na Terra Santa é extremamente importante e seu patriarcado está trabalhando firmemente para promover a reconciliação na região.
«Os cristãos necessitam de apoio moral, necessitam sentir que não estão sozinhos. Uma contribuição muito importante ao processo de paz é a educação, quer dizer, iniciativas que permitam aos jovens se unir, conhecer os respectivos símbolos religiosos e eliminar preconceitos», disse.
zenit.org
Em um encontro com uma delegação ecumênica
JERUSALÉM, sexta-feira, 3 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Líderes de diferentes Igrejas cristãs reuniram-se com uma delegação ecumênica que visitou a Terra Santa e explicaram a cada vez mais difícil situação dos cristãos.
A delegação formada por uma equipe de «Cartas Vivas» –segundo informa o Conselho Mundial de Igrejas– foi informada sobre as muitas formas em que as igrejas da região cooperam para prestar serviços sociais e advogar pela paz e a justiça.
O grupo pode constatar que «a já escassa população de cristãos palestinos segue diminuindo e a vida torna-se cada vez mais difícil para os palestinos que vivem sob ocupação de Israel. O trabalho das igrejas está submetido a uma pressão crescente e necessita desesperadamente de apoio».
«Cartas Vivas» são pequenas equipes ecumênicas internacionais que viajam a lugares onde os cristãos lutam para superar a violência. Sua finalidade é expressar a solidariedade da família ecumênica e informar-se sobre a forma como as pessoas resolvem seus problemas.
Durante sete dias, a delegação reuniu-se com líderes de igrejas locais: o patriarca ortodoxo grego Teófilo III, o patriarca latino Fouad Twal, o bispo luterano Munib Younan, e o clérigo Robert Edmunds, representante do bispo anglicano Suheil Dawani.
Os líderes cristãos assinalaram entre os fatores que contribuem com as elevadas taxas de emigração dos cristãos palestinos «as políticas discriminatórias, a demolição de casas palestinas para dar lugar a assentamentos israelenses, as elevadas taxas de desemprego e a violência dos colonos israelenses».
O patriarca Fouad Twal comunicou o «amargo sentido de impotência entre os cristãos da Palestina», depois de 60 anos de ocupação. «Seguimos orando –afirmou– e cremos no poder da oração. Temos esperança na nova administração dos Estados Unidos, mas necessitamos que todos os países nos apoiem».
O patriarca Teófilo III disse que uma forte presença cristã na Terra Santa é extremamente importante e seu patriarcado está trabalhando firmemente para promover a reconciliação na região.
«Os cristãos necessitam de apoio moral, necessitam sentir que não estão sozinhos. Uma contribuição muito importante ao processo de paz é a educação, quer dizer, iniciativas que permitam aos jovens se unir, conhecer os respectivos símbolos religiosos e eliminar preconceitos», disse.
zenit.org
Bispos belgas rejeitam resolução do Parlamento sobre Papa
CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 3 de abril de 2009 (ZENIT.org).- A Câmara dos Deputados da Bélgica aprovou ontem, quinta-feira, uma resolução que pede ao governo condenar as «inaceitáveis» declarações realizadas pelo Papa Bento XVI em seu vôo à África com relação à ineficácia do preservativo na luta contra a AIDS, e de «protestar oficialmente diante da Santa Sé».
Em uma nota difundida nesta sexta-feira pela Conferência dos Bispos da Bélgica, os prelados afirmam que «respeitam o caráter democrático desta decisão, mas lamentando seu conteúdo».
A resolução, afirmam, «não leva em conta o que Bento XVI quis expressar realmente», ou seja, que «sem uma educação na responsabilidade sexual, os demais meios de prevenção serão deficitários».
«Auguramos – acrescentam – que com a proximidade da Páscoa, a polêmica possa diminuir. O que nosso país e a África precisam é de uma reflexão serena sobre todos os meios a colocar em prática para frear a epidemia da AIDS.»
Em um artigo, o jornal da Santa Sé, L'Osservatore Romano, recorda que «o óbvio e devido respeito por uma instituição de representação democrática não deve fazer esquecer o também devido respeito à liberdade de expressão de uma autoridade religiosa à qual faz referência mais de um bilhão de mulheres e homens de todo o mundo, sobretudo quando suas afirmações não são compreendidas em sua intenção».
Por sua parte, o porta-voz vaticano, Federico Lombardi, em uma entrevista concedida à Rádio Vaticano, expressou seu «estupor» pela resolução, «já que em todo país democrático parece óbvia a liberdade do Santo Padre e da Igreja Católica de expressar suas próprias posturas e linhas sobre temas que têm evidente conexão com a visão da pessoa humana e de sua responsabilidade moral, com as perspectivas da tarefa educativa e formativa das pessoas, com o serviço de cuidar dos doentes e dos que sofrem».
«A grande tradição e experiência da Igreja no campo formativo e no de saúde, em particular nos países mais pobres, são tão evidentes que não precisam de demonstração ou comentários», acrescentou o jesuíta.
«É preciso perguntar-se – concluiu – se as posturas do Santo Padre foram consideradas com suficiente atenção e seriedade ou, ao contrário, com o filtro não objetivo nem equilibrado dos ecos na mídia ocidental.»
zenit.org
Em uma nota difundida nesta sexta-feira pela Conferência dos Bispos da Bélgica, os prelados afirmam que «respeitam o caráter democrático desta decisão, mas lamentando seu conteúdo».
A resolução, afirmam, «não leva em conta o que Bento XVI quis expressar realmente», ou seja, que «sem uma educação na responsabilidade sexual, os demais meios de prevenção serão deficitários».
«Auguramos – acrescentam – que com a proximidade da Páscoa, a polêmica possa diminuir. O que nosso país e a África precisam é de uma reflexão serena sobre todos os meios a colocar em prática para frear a epidemia da AIDS.»
Em um artigo, o jornal da Santa Sé, L'Osservatore Romano, recorda que «o óbvio e devido respeito por uma instituição de representação democrática não deve fazer esquecer o também devido respeito à liberdade de expressão de uma autoridade religiosa à qual faz referência mais de um bilhão de mulheres e homens de todo o mundo, sobretudo quando suas afirmações não são compreendidas em sua intenção».
Por sua parte, o porta-voz vaticano, Federico Lombardi, em uma entrevista concedida à Rádio Vaticano, expressou seu «estupor» pela resolução, «já que em todo país democrático parece óbvia a liberdade do Santo Padre e da Igreja Católica de expressar suas próprias posturas e linhas sobre temas que têm evidente conexão com a visão da pessoa humana e de sua responsabilidade moral, com as perspectivas da tarefa educativa e formativa das pessoas, com o serviço de cuidar dos doentes e dos que sofrem».
«A grande tradição e experiência da Igreja no campo formativo e no de saúde, em particular nos países mais pobres, são tão evidentes que não precisam de demonstração ou comentários», acrescentou o jesuíta.
«É preciso perguntar-se – concluiu – se as posturas do Santo Padre foram consideradas com suficiente atenção e seriedade ou, ao contrário, com o filtro não objetivo nem equilibrado dos ecos na mídia ocidental.»
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Gato escaldado: O mundo teme uma nova crise causada pelo petróleo
Gato escaldado 15/03/2000 especial de VEJA
O mundo teme uma nova crise causada pelo petróleo
As pessoas andam espantadas com os saltos que o preço internacional do petróleo tem dado nos últimos tempos. Depois de anos de calmaria, de produção farta e preços em queda, os países produtores de petróleo parecem estar sofrendo de esquizofrenia. Na semana passada, para cada dia de alta na cotação do petróleo, houve um de baixa. É difícil entender o que está acontecendo, e a lembrança dos choques dos anos 70 e 80 ainda está muito vívida. Naqueles anos, a redução na extração de óleo provocou crises econômicas de proporções planetárias. Teme-se que algo semelhante volte a acontecer. O risco existe, já que o petróleo ainda é um componente importante na formação de todos os preços da economia – desde a alface, transportada de caminhão, até o plástico de embalagem. Mas a observação do quadro do consumo de energia no mundo nos últimos anos é tranqüilizadora. A dependência em relação ao petróleo está diminuindo. Em muitas áreas o óleo vem sendo substituído por energia obtida em hidrelétricas, usinas nucleares, por gás natural e até pela força dos ventos. No Brasil, a participação do petróleo na energia consumida caiu de 42% em 1973 para 35% atualmente.
Confrontado com esses fatos o temor mundial parece exagerado. No entanto, americanos, ingleses e brasileiros estão olhando o fenômeno com atenção. No Brasil, o preço dos combustíveis foi elevado em cerca de 7% no dia 1º de março. Isso ainda não fez disparar a inflação, mas um novo aumento poderia provocar um desequilíbrio na economia, o que ninguém quer. Na semana passada o presidente Fernando Henrique Cardoso tocou no assunto. Disse que não pretende aprovar novo aumento antes de julho. "Não está nos nossos cálculos", explicou. Nos Estados Unidos, Alan Greenspan, o presidente do Fed, o banco central, já deu sinais de que os juros subirão se a inflação subir, empurrada pelo petróleo. Isso esfriaria a economia dos EUA, locomotiva da economia mundial.
Os americanos, que são os maiores consumidores de petróleo do planeta, são os mais interessados na questão. Seu governo tem pressionado o México e a Arábia Saudita para que aumentem sua produção de petróleo. Quando a pressão cresce, os preços caem. No dia seguinte, voltam a subir. Explica-se. O petróleo é mercadoria farta, e portanto barata, desde que a União Soviética, detentora de enormes reservas, se esfacelou em dezenas de países. Recentemente os produtores decidiram reduzir a extração de óleo, para transformar o produto em algo mais disputado e, conseqüentemente, mais caro. Mas não há total consenso entre eles. Hoje, produzem petróleo tanto o México e a Venezuela como os países do Oriente Médio, a Rússia e a Noruega. Só a notícia de que um deles possa bambear, e largar o cartel, faz o preço despencar. "É uma fase. O mais provável é que os preços caiam para um patamar entre 20 e 25 dólares", diz o consultor Milton Franke, especialista nesse mercado.
http://veja.abril.com.br/150300/p_125.html
O mundo teme uma nova crise causada pelo petróleo
As pessoas andam espantadas com os saltos que o preço internacional do petróleo tem dado nos últimos tempos. Depois de anos de calmaria, de produção farta e preços em queda, os países produtores de petróleo parecem estar sofrendo de esquizofrenia. Na semana passada, para cada dia de alta na cotação do petróleo, houve um de baixa. É difícil entender o que está acontecendo, e a lembrança dos choques dos anos 70 e 80 ainda está muito vívida. Naqueles anos, a redução na extração de óleo provocou crises econômicas de proporções planetárias. Teme-se que algo semelhante volte a acontecer. O risco existe, já que o petróleo ainda é um componente importante na formação de todos os preços da economia – desde a alface, transportada de caminhão, até o plástico de embalagem. Mas a observação do quadro do consumo de energia no mundo nos últimos anos é tranqüilizadora. A dependência em relação ao petróleo está diminuindo. Em muitas áreas o óleo vem sendo substituído por energia obtida em hidrelétricas, usinas nucleares, por gás natural e até pela força dos ventos. No Brasil, a participação do petróleo na energia consumida caiu de 42% em 1973 para 35% atualmente.
Confrontado com esses fatos o temor mundial parece exagerado. No entanto, americanos, ingleses e brasileiros estão olhando o fenômeno com atenção. No Brasil, o preço dos combustíveis foi elevado em cerca de 7% no dia 1º de março. Isso ainda não fez disparar a inflação, mas um novo aumento poderia provocar um desequilíbrio na economia, o que ninguém quer. Na semana passada o presidente Fernando Henrique Cardoso tocou no assunto. Disse que não pretende aprovar novo aumento antes de julho. "Não está nos nossos cálculos", explicou. Nos Estados Unidos, Alan Greenspan, o presidente do Fed, o banco central, já deu sinais de que os juros subirão se a inflação subir, empurrada pelo petróleo. Isso esfriaria a economia dos EUA, locomotiva da economia mundial.
Os americanos, que são os maiores consumidores de petróleo do planeta, são os mais interessados na questão. Seu governo tem pressionado o México e a Arábia Saudita para que aumentem sua produção de petróleo. Quando a pressão cresce, os preços caem. No dia seguinte, voltam a subir. Explica-se. O petróleo é mercadoria farta, e portanto barata, desde que a União Soviética, detentora de enormes reservas, se esfacelou em dezenas de países. Recentemente os produtores decidiram reduzir a extração de óleo, para transformar o produto em algo mais disputado e, conseqüentemente, mais caro. Mas não há total consenso entre eles. Hoje, produzem petróleo tanto o México e a Venezuela como os países do Oriente Médio, a Rússia e a Noruega. Só a notícia de que um deles possa bambear, e largar o cartel, faz o preço despencar. "É uma fase. O mais provável é que os preços caiam para um patamar entre 20 e 25 dólares", diz o consultor Milton Franke, especialista nesse mercado.
http://veja.abril.com.br/150300/p_125.html
Edição 1 640 - 15/3/2000 Carta de C. R. Darwin sobre Teoria da Evolução das Espécies
1844
A J. D. Hooker
11 de janeiro de 1844
1 Down. Bromley, Kent Quinta-feira
Meu prezado Senhor,
Devo escrever para vos agradecer por vossa última carta; & para dizer o quanto todas as vossas idéias e dados me interessam.-Tenho que pedir licença para dar minha interpretação pessoal do que dizeis sobre "não ser um bom organizador de pontos de vista amplos": - que é que não vos entregais às especulações desconexas que são tão facilmente empreendidas por todo conhecedor superficial & todo colecionador errante.-Vejo a tendência acentuada para a generalização como um completo malefício– Peço-vos a gentileza de observar um pequeno fato para mim: se alguma espécie de planta característica de qualquer ilha, como as Galápagos, Sta. Helena ou a Nova Zelândia, onde não há quadrúpedes de grande porte, tem sementes recurvadas - com ganchos que, se observados aqui, seriam justificadamente considerados como adaptados para se prender à lã dos animais- Peço-vos ainda o obséquio de me informar, em algum momento (embora eu esteja esquecendo de que isso certamente aparecerá em vossa Flora da Antártida), se em ilhas como Sta. Helena, as Galápagos & a Nova Zelândia, o número de famílias & gêneros é grande em comparação com o número de espécies, como acontece nas ilhas de coral &, segundo creio(?), nos pontos mais remotos das terras árticas. Decerto isso é o que acontece com as conchas Marinhas nos pontos mais distantes dos mares árticos.- Porventura suponde que a escassez numérica de espécies, proporcionalmente ao número de grandes grupos nas ilhotas de Coral, deve-se ao acaso, que faz que sementes de todas as ordens sejam levadas a esmo para esses novos locais, como presumi?- Já haveis coletado conchas marinhas na região de Kerguelen? Eu gostaria de saber qual o caráter delas. ... A parte meu interesse geral pelas terras do sul, tenho agora esta-do empenhado, desde minha volta, num trabalho muito pretensioso, &que não conheço nenhum indivíduo que não chamasse de uma grande tolice- Fiquei tão impressionado com a distribuição dos organismos nas Galápagos &c &c, & com o caráter dos mamíferos fossilizados americanos &c &c, que decidi coletar às cegas toda sorte de dados que pudessem ter alguma relação com o que são as espécies. Li pilhas de livros de agricultura; horticultura, & nunca parei de colecionar dados. Por fim, surgiram alguns raios de luz, & estou quase convencido (contrariando a opinião com que comecei) de que as espécies não são (isto é como confessar um assassinato) imutáveis. Deus me livre do disparate lamarckiano de uma "tendência para o progresso", de "adaptações oriundas da vontade lenta dos animais" &c,- mas as conclusões a que sou levado não diferem muito das dele - embora os meios da mudança sejam inteiramente diferentes. Creio haver descoberto (isso é que é presunção!) a maneira simples pela qual as espécies adaptam-se primorosamente a diversas finalidades-1 Agora haveis de dar um suspiro & pensar com vossos botões: "que homem é esse com quem venho desperdiçando meu tempo ao lhe escrever{?}- É o que eu teria pensado, cinco anos atrás. ... Recebei, meu prezado Senhor,
Minhas mui atenciosas saudações,
C. Darwin
________________________________________
A Errima Darwin,
5 de julho de 1844 Down.
5 de julho - 1844
Minha. Querida. Emma.
Acabo de terminar meu esboço de minha teoria sobre as espécies. Se, como creio, minha teoria for verdadeira, & se ela for aceita até mesmo por um só juiz competente, isso será um passo considerável na ciência. Portanto, redijo isto, para a eventualidade de minha morte súbita, como meu mais solene & último pedido, que estou certo de que irás considerar da mesma forma que se eu o houvesse incluído legalmente em meu testamento: que dediques 400£ à publicação dela & amp;, além disso, que te empenhes pessoalmente, ou através de Hensleigh, em promovê-la- Desejo que meu esboço seja entregue a uma pessoa competente, juntamente com essa soma, para induzi-la a se empenhar em seu aprimoramento & ampliação.- Dôo a essa pessoa todos os meus Livros de História Natural que estão anotados ou trazem referências no rodapé das páginas, rogando-lhe que examine & considere essas passagens, cuidadosamente, como de fato estando relacionadas ou podendo estar relacionadas com esse assunto.- Desejo que faças uma lista de todos esses livros, como uma tentação para um Organizador. Peço também que lhe entregues todos aqueles fragmentos divididos em mais ou menos oito ou dez Pastas de papel pardo:- Os fragmentos com citações copiadas de diversos livros são os que poderão ajudar meu Organizador. - Peço também que tu (ou um amanuense) ajudes a decifrar qualquer dos fragmentos que o Organizador julgue que possam ser úteis- Deixo a critério dele a decisão de intercalar esses dados no corpo do texto, ou como notas, ou em apêndices. Uma vez que o exame das referências & dos fragmentos será um trabalho prolongado, & uma vez que a correção & ampliação & alteração de meu esboço também levarão um tempo considerável, deixo essa soma de 400£ como uma pequena remuneração & um benefício a ser extraído desse trabalho- Considero que, em razão disso, o Organizador assumirá o compromisso de mandar publicar o esboço, seja numa Editora, seja por sua conta e risco. Muitos dos fragmentos que se encontram nas Pastas contém [sic] simples sugestões grosseiras & idéias iniciais, que já agora são inúteis, & é provável que muitos dos dados revelem não ter nenhuma relação com minha teoria. Com respeito aos Organizadores.- 0 Sr. Lyell seria o melhor, caso se disponha a aceitar esse encargo: creio que ele julgaria o trabalho agradável & aprenderia alguns fatos que lhe seriam inéditos. Pois que o Organizador deve ser geólogo, além de Naturalista. A segunda melhor opção como Organizador seria o Professor Forbes, de Londres. A opção seguinte (& muito melhor, sob vários aspectos) seria o Professor Henslow??. 0 Dr. Hooker talvez se dispusesse a corrigir a Parte de Botânica, provavelmente - e serviria como Organizador- 0 Dr. Hooker seria ótimo. A opção seguinte, o Sr. Strickland.- Se [nenhum] destes se dispuser a cuidar desse trabalho, rogo-te que consultes o Sr. Lyell, ou algum outro homem competente, para encontrar um Organizador que seja geólogo & naturalista. ...
Minha querida Esposa,
Do afet{uosamente} teu,
C. R. Darwin
Se houver alguma dificuldade de conseguir um organizador que se disponha a examinar o assunto minuciosamente, & a refletir sobre a relação entre os trechos assinalados nos Livros & copiados em pedaços de Papel, então, que meu esboço seja publicado como está, com a declaração de que foi redigido anos atrás & de memória, sem a consulta de quaisquer livros & sem nenhuma intenção de ser publicado em sua forma atual ...
http://veja.abril.com.br/150300/p_150a.html
1844
A J. D. Hooker
11 de janeiro de 1844
1 Down. Bromley, Kent Quinta-feira
Meu prezado Senhor,
Devo escrever para vos agradecer por vossa última carta; & para dizer o quanto todas as vossas idéias e dados me interessam.-Tenho que pedir licença para dar minha interpretação pessoal do que dizeis sobre "não ser um bom organizador de pontos de vista amplos": - que é que não vos entregais às especulações desconexas que são tão facilmente empreendidas por todo conhecedor superficial & todo colecionador errante.-Vejo a tendência acentuada para a generalização como um completo malefício– Peço-vos a gentileza de observar um pequeno fato para mim: se alguma espécie de planta característica de qualquer ilha, como as Galápagos, Sta. Helena ou a Nova Zelândia, onde não há quadrúpedes de grande porte, tem sementes recurvadas - com ganchos que, se observados aqui, seriam justificadamente considerados como adaptados para se prender à lã dos animais- Peço-vos ainda o obséquio de me informar, em algum momento (embora eu esteja esquecendo de que isso certamente aparecerá em vossa Flora da Antártida), se em ilhas como Sta. Helena, as Galápagos & a Nova Zelândia, o número de famílias & gêneros é grande em comparação com o número de espécies, como acontece nas ilhas de coral &, segundo creio(?), nos pontos mais remotos das terras árticas. Decerto isso é o que acontece com as conchas Marinhas nos pontos mais distantes dos mares árticos.- Porventura suponde que a escassez numérica de espécies, proporcionalmente ao número de grandes grupos nas ilhotas de Coral, deve-se ao acaso, que faz que sementes de todas as ordens sejam levadas a esmo para esses novos locais, como presumi?- Já haveis coletado conchas marinhas na região de Kerguelen? Eu gostaria de saber qual o caráter delas. ... A parte meu interesse geral pelas terras do sul, tenho agora esta-do empenhado, desde minha volta, num trabalho muito pretensioso, &que não conheço nenhum indivíduo que não chamasse de uma grande tolice- Fiquei tão impressionado com a distribuição dos organismos nas Galápagos &c &c, & com o caráter dos mamíferos fossilizados americanos &c &c, que decidi coletar às cegas toda sorte de dados que pudessem ter alguma relação com o que são as espécies. Li pilhas de livros de agricultura; horticultura, & nunca parei de colecionar dados. Por fim, surgiram alguns raios de luz, & estou quase convencido (contrariando a opinião com que comecei) de que as espécies não são (isto é como confessar um assassinato) imutáveis. Deus me livre do disparate lamarckiano de uma "tendência para o progresso", de "adaptações oriundas da vontade lenta dos animais" &c,- mas as conclusões a que sou levado não diferem muito das dele - embora os meios da mudança sejam inteiramente diferentes. Creio haver descoberto (isso é que é presunção!) a maneira simples pela qual as espécies adaptam-se primorosamente a diversas finalidades-1 Agora haveis de dar um suspiro & pensar com vossos botões: "que homem é esse com quem venho desperdiçando meu tempo ao lhe escrever{?}- É o que eu teria pensado, cinco anos atrás. ... Recebei, meu prezado Senhor,
Minhas mui atenciosas saudações,
C. Darwin
________________________________________
A Errima Darwin,
5 de julho de 1844 Down.
5 de julho - 1844
Minha. Querida. Emma.
Acabo de terminar meu esboço de minha teoria sobre as espécies. Se, como creio, minha teoria for verdadeira, & se ela for aceita até mesmo por um só juiz competente, isso será um passo considerável na ciência. Portanto, redijo isto, para a eventualidade de minha morte súbita, como meu mais solene & último pedido, que estou certo de que irás considerar da mesma forma que se eu o houvesse incluído legalmente em meu testamento: que dediques 400£ à publicação dela & amp;, além disso, que te empenhes pessoalmente, ou através de Hensleigh, em promovê-la- Desejo que meu esboço seja entregue a uma pessoa competente, juntamente com essa soma, para induzi-la a se empenhar em seu aprimoramento & ampliação.- Dôo a essa pessoa todos os meus Livros de História Natural que estão anotados ou trazem referências no rodapé das páginas, rogando-lhe que examine & considere essas passagens, cuidadosamente, como de fato estando relacionadas ou podendo estar relacionadas com esse assunto.- Desejo que faças uma lista de todos esses livros, como uma tentação para um Organizador. Peço também que lhe entregues todos aqueles fragmentos divididos em mais ou menos oito ou dez Pastas de papel pardo:- Os fragmentos com citações copiadas de diversos livros são os que poderão ajudar meu Organizador. - Peço também que tu (ou um amanuense) ajudes a decifrar qualquer dos fragmentos que o Organizador julgue que possam ser úteis- Deixo a critério dele a decisão de intercalar esses dados no corpo do texto, ou como notas, ou em apêndices. Uma vez que o exame das referências & dos fragmentos será um trabalho prolongado, & uma vez que a correção & ampliação & alteração de meu esboço também levarão um tempo considerável, deixo essa soma de 400£ como uma pequena remuneração & um benefício a ser extraído desse trabalho- Considero que, em razão disso, o Organizador assumirá o compromisso de mandar publicar o esboço, seja numa Editora, seja por sua conta e risco. Muitos dos fragmentos que se encontram nas Pastas contém [sic] simples sugestões grosseiras & idéias iniciais, que já agora são inúteis, & é provável que muitos dos dados revelem não ter nenhuma relação com minha teoria. Com respeito aos Organizadores.- 0 Sr. Lyell seria o melhor, caso se disponha a aceitar esse encargo: creio que ele julgaria o trabalho agradável & aprenderia alguns fatos que lhe seriam inéditos. Pois que o Organizador deve ser geólogo, além de Naturalista. A segunda melhor opção como Organizador seria o Professor Forbes, de Londres. A opção seguinte (& muito melhor, sob vários aspectos) seria o Professor Henslow??. 0 Dr. Hooker talvez se dispusesse a corrigir a Parte de Botânica, provavelmente - e serviria como Organizador- 0 Dr. Hooker seria ótimo. A opção seguinte, o Sr. Strickland.- Se [nenhum] destes se dispuser a cuidar desse trabalho, rogo-te que consultes o Sr. Lyell, ou algum outro homem competente, para encontrar um Organizador que seja geólogo & naturalista. ...
Minha querida Esposa,
Do afet{uosamente} teu,
C. R. Darwin
Se houver alguma dificuldade de conseguir um organizador que se disponha a examinar o assunto minuciosamente, & a refletir sobre a relação entre os trechos assinalados nos Livros & copiados em pedaços de Papel, então, que meu esboço seja publicado como está, com a declaração de que foi redigido anos atrás & de memória, sem a consulta de quaisquer livros & sem nenhuma intenção de ser publicado em sua forma atual ...
http://veja.abril.com.br/150300/p_150a.html
A Darwin o que é de Darwin...
Especial
A Darwin o que é de Darwin...
As ideias revolucionárias do naturalista inglês, que nasceu há 200 anos, são os pilares da biologia e da genética e estão presentes em muitas áreas da ciência moderna. O mistério é por que tanta gente ainda reluta em aceitar que o homem é o resultado da evolução
Gabriela Carelli
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Em VEJA de 15/3/2000
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Da internet
• Site da Universidade de Cambridge, com a obra completa de Charles Darwin, desde seu trabalho sobre a teoria da evolução das espécies, cartas, manuscritos, diários até ilustrações originais
Charles Darwin é um paradoxo moderno. Não sob a ótica da ciência, área em que seu trabalho é plenamente aceito e celebrado como ponto de partida para um grau de conhecimento sem precedentes sobre os seres vivos. Sem a teoria da evolução, a moderna biologia, incluindo a medicina e a biotecnologia, simplesmente não faria sentido. O enigma reside na relutância, quase um mal-estar, que suas ideias causam entre um vasto contingente de pessoas, algumas delas fervorosamente religiosas, outras nem tanto. Veja o que ocorre nos Estados Unidos. O país dispõe das melhores universidades do mundo, detém metade dos cientistas premiados com o Nobel e registra mais patentes do que todos os seus concorrentes diretos somados. Ainda assim, só um em cada dois americanos acredita que o homem possa ser produto de milhões de anos de evolução. O outro considera razoável que nós, e todas as coisas que nos cercam, estejamos aqui por dádiva da criação divina. Mesmo na Inglaterra, país natal de Darwin, o fato de ele ser festejado como herói nacional não impede que um em cada quatro ingleses duvide de suas ideias ou as veja como pura enganação. Na semana em que se comemora o bicentenário de nascimento de Darwin e, por coincidência, no ano do sesquicentenário da publicação de seu livro mais célebre, A Origem das Espécies, como explicar a persistente má vontade para com suas teorias em países campeões na produção científica?
Para investigar a razão pela qual as ideias de Darwin ainda são vistas como perigosas, é preciso recuar no passado. Quando o naturalista inglês pela primeira vez propôs suas teses sobre a evolução pela seleção natural, a maioria dos cientistas acreditava que a Terra não tivesse mais de 6.000 anos de existência, que as maravilhas da natureza fossem uma manifestação da sabedoria divina. A hipótese mais aceita sobre os fósseis de dinossauros era que se tratava de criaturas que perderam o embarque na Arca de Noé e foram extintas pelo dilúvio bíblico. A publicação de A Origem das Espécies teve o efeito de um tsunami na Inglaterra vitoriana. Os biólogos se viram desmentidos em sua certeza de que as espécies são imutáveis. A Igreja ficou perplexa por alguém desafiar o dogma segundo o qual Deus criou o homem à sua semelhança e os animais da forma como os conhecemos. A sociedade se chocou com a tese de que o homem não é um ser especial na natureza e, ainda por cima, tem parentesco com os macacos. Havia, naquele momento, compreensível contestação científica às novas ideias. Darwin havia reunido uma quantidade impressionante de provas empíricas – mas ainda restavam muitas questões sem resposta.
O primeiro exemplar a sair da gráfica foi enviado a sir John Herschel, um dos mais famosos cientistas ingleses vivos em 1859. Darwin tinha tanta admiração por ele que o citou no primeiro parágrafo de A Origem das Espécies. Herschel não gostou do que leu. Ele não podia acreditar, sem provas científicas tangíveis, que as espécies podiam surgir de variações ao acaso. Pressionado, Darwin disse que, se alguém lhe apontasse um único ser vivo que não tivesse um ascendente, sua teoria poderia ser jogada no lixo. O que se encontrou em profusão foram evidências da correção do pensamento de Darwin em seus pontos essenciais. Hoje, para entender a história da evolução, sua narrativa e mecanismo, os modernos darwinistas não precisam conjeturar sobre o funcionamento da hereditariedade. Eles simplesmente consultam as estruturas genéticas. As evidências que sustentam o darwinismo são agora de grande magnitude – mas, estranhamente, a ansiedade permanece.
Outros pilares da ciência moderna, como a teoria da relatividade, de Albert Einstein, não suscitam tanta desconfiança e hostilidade. Raros são aqueles que se sentem incomodados diante da impossibilidade de viajar mais rápido que a luz ou saem à rua em protesto contra a afirmação de que a gravidade deforma o espaço-tempo. Evidentemente, o núcleo incandescente da irritação causada por Darwin tem conotação religiosa. A descoberta dos mecanismos da evolução enfraqueceu o único bom argumento disponível para a existência de Deus. Se Ele não é responsável por todas essas maravilhas da natureza, sua presença só poderia ser realmente sentida na fé de cada indivíduo. Mas isso não explica tudo. Em 1920, ao escrever sobre o impacto da divulgação das ideias darwinistas, Sigmund Freud deu seu palpite: "Ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à posição de mero descendente do mundo animal". Pelo raciocínio do pai da psicanálise, a rejeição à teoria da evolução seria uma forma de compensar o "rebaixamento" da espécie humana contido nas ideias de Copérnico e Darwin.
O biólogo americano Stephen Jay Gould, um dos grandes teóricos do evolucionismo no século XX, morto em 2002, dizia que as teorias de Dar-win são tão mal compreendidas não porque sejam complexas, mas porque muita gente evita compreendê-las. Concordar com Darwin significa aceitar que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra. Disse a VEJA o biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton: "As grandes ideias e teorias são aceitas ou rejeitadas popularmente por suas consequências, não pelo seu valor intrínseco. Infelizmente, a evolução é percebida por muitos como uma arma projetada para destruir a religião, a moral e o potencial dos seres humanos". Uma pesquisa publicada pela revista New Scientist sobre a aceitação do darwinismo ao redor do mundo mostra que os mais ardentes defensores da evolução estão na Islândia, Dinamarca e Suécia. De modo geral, a crença na evolução é inversamente proporcional à crença em Deus. Mas a pesquisa encontrou outra configuração interessante: os habitantes dos países ricos acreditam menos em Deus que aqueles que vivem em países inseguros. Isso pode significar que a crença em Deus e a rejeição do evolucionismo são mais intensas nas sociedades sujeitas às pressões darwinistas, como escreveu a revista Economist.
Fotos Latinstock e David Ball/Corbis/Latinstock
O medo do inferno
Muito religiosa, Emma, a mulher de Darwin, temia que o marido fosse para o inferno. Ela dava por certo que iria para o céu e sofria com a ideia de ficarem separados pela eternidade. À direita, a casa da família, nos arredores de Londres: nela, Darwin viveu e trabalhou por quarenta anos
A teoria da evolução causa mal-estar em muita gente – mas só algumas confissões evangélicas converteram o darwinismo em um inimigo a ser combatido a todo custo. Como essas reli-giões são poderosas nos Estados Unidos, é lá que se trava o mais renhido combate dessa guerra santa. Ciência e religião já andaram de mãos dadas pela maior parte da história da humanidade (veja reportagem). Mas esse nó se desatou há dois séculos e Dar-win foi um dos responsáveis por esse divórcio amigável, com nítidas vantagens para ambos os lados.
Desde o ano passado, o bordão entre os criacionistas americanos é "liberdade acadêmica". A ideia que tentam passar é que o darwinismo é apenas uma teoria, não um fato, e ainda por cima está cheio de lacunas e é carente de provas conclusivas. Sendo assim, não há por que Darwin merecer maior destaque que o criacionismo. O argumento é de evidente má-fé. Em seu significado comum, teoria é sinônimo de hipótese, de achismo. A teoria da evolução de Darwin usa o termo em sua conotação científica. Nesse caso, a teoria é uma síntese de um vasto campo de conhecimentos formado por hipóteses que foram testadas e comprovadas por leis e fatos científicos. Ou seja, uma linha de raciocínio confirmada por evidências e experimentos. Por isso, quando é ensinado numa aula de religião, o gênesis está em local apropriado. Colocado em qualquer outro contexto, só serve para confundir os estudantes sobre a natureza da ciência.
A ciência não tem respostas para todas as perguntas. Não sabe, por exemplo, o que existia antes do Big Bang, que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos. Nosso conhecimento só começa três minutos depois do evento, quando as leis da física passaram a existir. Os cientistas também não são capazes de recriar a vida a partir de uma poça de água e alguns elementos químicos – o que se acredita ter acontecido 4,5 bilhões de anos atrás. A mão de Deus teria contribuído para que esses eventos primordiais tenham ocorrido? Não cabe à ciência responder enquanto não houver provas científicas do que aconteceu. O fato é que a luta dos criacionistas contra Darwin nada tem de científica. Em sua profissão de fé, eles têm o pleno direito de acreditar que Deus criou o mundo e tudo o que existe nele. Coisa bem diferente é querer impingir essa maneira de enxergar a natureza às crianças em idade escolar, renegando fatos comprovados pela ciência. Essa atitude nega às crianças os fundamentos da razão, substituindo-os pelo pensamento sobrenatural.
Manda o bom senso que não se misturem ciência e religião. A primeira perscruta os mistérios do mundo físico; a segunda, os do mundo espiritual. Elas não necessariamente se eliminam. Há cientistas eminentes que creem em Deus e não veem nisso nenhuma contradição com o darwinismo. O mais conhecido deles é o biólogo americano Francis Collins, um dos responsáveis pelo mapeamento do DNA humano. Diz ele: "Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. A Bíblia não é um livro científico. Não deve ser levado ao pé da letra". A Igreja Católica aceitou há bastante tempo que sua atribuição é cuidar da alma de seu 1 bilhão de fiéis e que o mundo físico é mais bem explicado pela ciência. O Vaticano até organizará em março o simpósio "Evolução biológica: fatos e teorias – Uma avaliação crítica 150 anos depois de A Origem das Espécies".
Em A Origem das Espécies, num raciocínio que cabe em poucas linhas mas expressa ideias de alcance gigantesco, Darwin produziu uma revolução que alteraria para sempre os rumos da ciência. Ele mostrou que todas as espécies descendem de um ancestral comum, uma forma de vida simples e primitiva. Darwin demonstrou também que, pelo processo que batizou de seleção natural, as espécies evoluem ao longo das eras, sofrendo mutações aleatórias que são transmitidas a seus descendentes. Essas mutações podem determinar a permanência da espécie na Terra ou sua extinção – dependendo da capacidade de adaptação ao ambiente. Uma década depois da publicação de seu livro seminal, o impacto das ideias de Darwin se multiplicaria por mil com o lançamento de A Descendência do Homem, obra em que mostra que o ser humano e os macacos divergiram de um mesmo ancestral, há 4 milhões de anos.
O embate entre evolucionistas e criacionistas teria causado um desgosto profundo a Darwin, que era religioso e chegou a se preparar para ser pastor da Igreja Anglicana. Esse plano foi interrompido pela fantástica aventura que protagonizou entre 1831 e 1836, em viagem a bordo do Beagle, um pequeno navio de exploração científica, numa das passagens mais conhecidas da história da ciência. Aos 22 anos, Darwin embarcou no Beagle para servir de acompanhante ao capitão do barco, o aristocrata inglês Robert Fitzroy. Durante a viagem, que se estendeu por quatro continentes, Darwin deu vazão à curiosidade sobre o mundo natural que o acompanhava desde a infância. Até a volta à Inglaterra, havia recolhido 1 529 espécies em frascos com álcool e 3 907 espécimes preservados. Darwin escreveu um diário de 770 páginas, no qual relata suas experiências nos lugares por onde passou. No Brasil, visitou o Rio de Janeiro e a Bahia, extasiando-se com a biodiversidade da Mata Atlântica – mas ficou horrorizado com a escravidão e com a maneira como os escravos eram tratados.
Frans Lanting/Corbis/Latinstock
O pescoço da girafa
Anterior a Darwin, o naturalista francês Lamarck elaborou a primeira teoria da evolução. Para ele, o pescoço da girafa teria esticado para colher folhas e frutos no alto das árvores. A seleção natural de Darwin explica melhor: em grandes períodos de seca, só os animais de pescoço mais longo conseguiam se alimentar, o que favoreceu a reprodução dos pescoçudos
Durante a viagem, Darwin fez as principais observações que o levariam a formular a teoria da evolução pela seleção natural. Grande parte delas teve como cenário as Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico. Lá, reparou que muitas das espécies eram semelhantes às que existiam no continente, mas apresentavam pequenas diferenças de uma ilha para outra. Chamaram sua atenção, principalmente, os tentilhões, pássaros cujo bico apresentava um formato em cada ilha, de acordo com o tipo de alimentação disponível. A única explicação para isso seria que as primeiras espécies de animais chegaram às ilhas vindas do continente. Depois, desenvolveram características diferentes, de acordo com as condições do ambiente de cada ilha. Era a prova da evolução. Mais recentemente, ao estudarem os mesmos tentilhões das Ilhas Galápagos, grupos de biólogos observaram a evolução ocorrer em tempo real. Os pássaros evoluíam de um ano para outro, de acordo com as mudanças nas condições climáticas da ilha. Darwin, que definiu a evolução como um processo invariavelmente longo, através das eras, ficaria espantado com as novas descobertas em seu parque de diversões científico.
Ao retornar à Inglaterra, após a viagem do Beagle, Darwin foi amadurecendo a teoria da evolução e começou a escrever A Origem das Espécies dois anos depois, em 1838. Só publicou o volume, no entanto, após 21 anos. Ele sabia do potencial explosivo de suas ideias na ultraconservadora Inglaterra do século XIX – da qual, ele próprio, era um legítimo representante. Elaborar uma teoria que ia contra os dogmas da Bíblia era, para Darwin, motivo de enorme angústia. Não colaboravam em nada os temores de sua mulher, Emma, de que, por causa de suas ideias, Darwin fosse para o inferno após a morte, enquanto ela iria para o céu – com isso, eles estariam condenados a viver separados na vida eterna. Darwin nunca declarou que a Bíblia estava errada. Manteve a fé religiosa até os últimos anos de vida, quando se declarou agnóstico – segundo seus biógrafos, sob o impacto da morte da filha Annie, aos 10 anos de idade.
Após o lançamento de A Origem das Espécies, um best-seller que esgotou rapidamente cinco edições, os cientistas não demoraram a aceitar a proposta de que as plantas e os animais evoluem e se modificam ao longo das eras. Na verdade, essa ideia chegou a ser formulada por outros cientistas, inclusive pelo avô de Darwin, o filósofo Erasmus Darwin. A noção de que a evolução das espécies se dá pela seleção natural, no entanto, é original de Charles Darwin, e só foi aceita integralmente depois da descoberta da estrutura do DNA, em 1953. Darwin atribuiu a transmissão de características entre as gerações a células chamadas gêmulas, que se desprenderiam dos tecidos e viajariam pelo corpo até os órgãos sexuais. Lá chegando, seriam copiadas e passadas às gerações seguintes. Os estudos feitos com ervilhas pelo monge austríaco Gregor Mendel na segunda metade do século XIX, mas aos quais a comunidade científica só deu importância no início do século XX, estabeleceram a ideia básica da genética moderna, a de que as características de cada indivíduo são transmitidas de pais para filhos pelo que ele chamou de "fatores", e hoje se conhece como genes. Com as ervilhas de Mendel, o processo concebido por Darwin teve comprovação científica. A descoberta da dupla hélice do DNA, pelos cientistas James Watson e Francis Crick, em 1953, finalmente esclareceu o mecanismo por meio do qual a informação genética é transmitida através das sucessivas gerações. Hoje, os biólogos se dedicam a responder a questões ainda em aberto no evolucionismo, como quais são exatamente as mudanças genéticas que provocam as adaptações produzidas pela seleção natural. É espantoso que, enquanto continuam a desbravar territórios na ciência, as ideias de Darwin ainda despertem tanto temor.
Com reportagem de Leandro Narloch, Paula Neiva e Renata Moraes
fonte:http://veja.abril.com.br/110209/p_072.shtml
A Darwin o que é de Darwin...
As ideias revolucionárias do naturalista inglês, que nasceu há 200 anos, são os pilares da biologia e da genética e estão presentes em muitas áreas da ciência moderna. O mistério é por que tanta gente ainda reluta em aceitar que o homem é o resultado da evolução
Gabriela Carelli
VEJA TAMBÉM
Nesta reportagem
• Quadro: Os 5 pilares do darwinismo
• Quadro: A trajetória da vida e o caminho do homem
• Quadro: Cinco anos no mar
• Quadro: As pegadas da evolução
• Quadro: Adversários famosos da evolução
Nesta edição
• A Darwin o que é de Darwin
• Onde Darwin é só mais uma teoria
• A ciência e a fé já foram unidas
Dos arquivos de VEJA
Em VEJA de 24/9/2008
• A evolução, com a bênção do papa
Em VEJA de 9/5/2007
• A revolução sem fim de Darwin
Em VEJA de 30/11/2005
• Por que Darwin ainda tem a chave da vida
Em VEJA de 15/3/2000
• Origens da Origem
Da internet
• Site da Universidade de Cambridge, com a obra completa de Charles Darwin, desde seu trabalho sobre a teoria da evolução das espécies, cartas, manuscritos, diários até ilustrações originais
Charles Darwin é um paradoxo moderno. Não sob a ótica da ciência, área em que seu trabalho é plenamente aceito e celebrado como ponto de partida para um grau de conhecimento sem precedentes sobre os seres vivos. Sem a teoria da evolução, a moderna biologia, incluindo a medicina e a biotecnologia, simplesmente não faria sentido. O enigma reside na relutância, quase um mal-estar, que suas ideias causam entre um vasto contingente de pessoas, algumas delas fervorosamente religiosas, outras nem tanto. Veja o que ocorre nos Estados Unidos. O país dispõe das melhores universidades do mundo, detém metade dos cientistas premiados com o Nobel e registra mais patentes do que todos os seus concorrentes diretos somados. Ainda assim, só um em cada dois americanos acredita que o homem possa ser produto de milhões de anos de evolução. O outro considera razoável que nós, e todas as coisas que nos cercam, estejamos aqui por dádiva da criação divina. Mesmo na Inglaterra, país natal de Darwin, o fato de ele ser festejado como herói nacional não impede que um em cada quatro ingleses duvide de suas ideias ou as veja como pura enganação. Na semana em que se comemora o bicentenário de nascimento de Darwin e, por coincidência, no ano do sesquicentenário da publicação de seu livro mais célebre, A Origem das Espécies, como explicar a persistente má vontade para com suas teorias em países campeões na produção científica?
Para investigar a razão pela qual as ideias de Darwin ainda são vistas como perigosas, é preciso recuar no passado. Quando o naturalista inglês pela primeira vez propôs suas teses sobre a evolução pela seleção natural, a maioria dos cientistas acreditava que a Terra não tivesse mais de 6.000 anos de existência, que as maravilhas da natureza fossem uma manifestação da sabedoria divina. A hipótese mais aceita sobre os fósseis de dinossauros era que se tratava de criaturas que perderam o embarque na Arca de Noé e foram extintas pelo dilúvio bíblico. A publicação de A Origem das Espécies teve o efeito de um tsunami na Inglaterra vitoriana. Os biólogos se viram desmentidos em sua certeza de que as espécies são imutáveis. A Igreja ficou perplexa por alguém desafiar o dogma segundo o qual Deus criou o homem à sua semelhança e os animais da forma como os conhecemos. A sociedade se chocou com a tese de que o homem não é um ser especial na natureza e, ainda por cima, tem parentesco com os macacos. Havia, naquele momento, compreensível contestação científica às novas ideias. Darwin havia reunido uma quantidade impressionante de provas empíricas – mas ainda restavam muitas questões sem resposta.
O primeiro exemplar a sair da gráfica foi enviado a sir John Herschel, um dos mais famosos cientistas ingleses vivos em 1859. Darwin tinha tanta admiração por ele que o citou no primeiro parágrafo de A Origem das Espécies. Herschel não gostou do que leu. Ele não podia acreditar, sem provas científicas tangíveis, que as espécies podiam surgir de variações ao acaso. Pressionado, Darwin disse que, se alguém lhe apontasse um único ser vivo que não tivesse um ascendente, sua teoria poderia ser jogada no lixo. O que se encontrou em profusão foram evidências da correção do pensamento de Darwin em seus pontos essenciais. Hoje, para entender a história da evolução, sua narrativa e mecanismo, os modernos darwinistas não precisam conjeturar sobre o funcionamento da hereditariedade. Eles simplesmente consultam as estruturas genéticas. As evidências que sustentam o darwinismo são agora de grande magnitude – mas, estranhamente, a ansiedade permanece.
Outros pilares da ciência moderna, como a teoria da relatividade, de Albert Einstein, não suscitam tanta desconfiança e hostilidade. Raros são aqueles que se sentem incomodados diante da impossibilidade de viajar mais rápido que a luz ou saem à rua em protesto contra a afirmação de que a gravidade deforma o espaço-tempo. Evidentemente, o núcleo incandescente da irritação causada por Darwin tem conotação religiosa. A descoberta dos mecanismos da evolução enfraqueceu o único bom argumento disponível para a existência de Deus. Se Ele não é responsável por todas essas maravilhas da natureza, sua presença só poderia ser realmente sentida na fé de cada indivíduo. Mas isso não explica tudo. Em 1920, ao escrever sobre o impacto da divulgação das ideias darwinistas, Sigmund Freud deu seu palpite: "Ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à posição de mero descendente do mundo animal". Pelo raciocínio do pai da psicanálise, a rejeição à teoria da evolução seria uma forma de compensar o "rebaixamento" da espécie humana contido nas ideias de Copérnico e Darwin.
O biólogo americano Stephen Jay Gould, um dos grandes teóricos do evolucionismo no século XX, morto em 2002, dizia que as teorias de Dar-win são tão mal compreendidas não porque sejam complexas, mas porque muita gente evita compreendê-las. Concordar com Darwin significa aceitar que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra. Disse a VEJA o biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton: "As grandes ideias e teorias são aceitas ou rejeitadas popularmente por suas consequências, não pelo seu valor intrínseco. Infelizmente, a evolução é percebida por muitos como uma arma projetada para destruir a religião, a moral e o potencial dos seres humanos". Uma pesquisa publicada pela revista New Scientist sobre a aceitação do darwinismo ao redor do mundo mostra que os mais ardentes defensores da evolução estão na Islândia, Dinamarca e Suécia. De modo geral, a crença na evolução é inversamente proporcional à crença em Deus. Mas a pesquisa encontrou outra configuração interessante: os habitantes dos países ricos acreditam menos em Deus que aqueles que vivem em países inseguros. Isso pode significar que a crença em Deus e a rejeição do evolucionismo são mais intensas nas sociedades sujeitas às pressões darwinistas, como escreveu a revista Economist.
Fotos Latinstock e David Ball/Corbis/Latinstock
O medo do inferno
Muito religiosa, Emma, a mulher de Darwin, temia que o marido fosse para o inferno. Ela dava por certo que iria para o céu e sofria com a ideia de ficarem separados pela eternidade. À direita, a casa da família, nos arredores de Londres: nela, Darwin viveu e trabalhou por quarenta anos
A teoria da evolução causa mal-estar em muita gente – mas só algumas confissões evangélicas converteram o darwinismo em um inimigo a ser combatido a todo custo. Como essas reli-giões são poderosas nos Estados Unidos, é lá que se trava o mais renhido combate dessa guerra santa. Ciência e religião já andaram de mãos dadas pela maior parte da história da humanidade (veja reportagem). Mas esse nó se desatou há dois séculos e Dar-win foi um dos responsáveis por esse divórcio amigável, com nítidas vantagens para ambos os lados.
Desde o ano passado, o bordão entre os criacionistas americanos é "liberdade acadêmica". A ideia que tentam passar é que o darwinismo é apenas uma teoria, não um fato, e ainda por cima está cheio de lacunas e é carente de provas conclusivas. Sendo assim, não há por que Darwin merecer maior destaque que o criacionismo. O argumento é de evidente má-fé. Em seu significado comum, teoria é sinônimo de hipótese, de achismo. A teoria da evolução de Darwin usa o termo em sua conotação científica. Nesse caso, a teoria é uma síntese de um vasto campo de conhecimentos formado por hipóteses que foram testadas e comprovadas por leis e fatos científicos. Ou seja, uma linha de raciocínio confirmada por evidências e experimentos. Por isso, quando é ensinado numa aula de religião, o gênesis está em local apropriado. Colocado em qualquer outro contexto, só serve para confundir os estudantes sobre a natureza da ciência.
A ciência não tem respostas para todas as perguntas. Não sabe, por exemplo, o que existia antes do Big Bang, que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos. Nosso conhecimento só começa três minutos depois do evento, quando as leis da física passaram a existir. Os cientistas também não são capazes de recriar a vida a partir de uma poça de água e alguns elementos químicos – o que se acredita ter acontecido 4,5 bilhões de anos atrás. A mão de Deus teria contribuído para que esses eventos primordiais tenham ocorrido? Não cabe à ciência responder enquanto não houver provas científicas do que aconteceu. O fato é que a luta dos criacionistas contra Darwin nada tem de científica. Em sua profissão de fé, eles têm o pleno direito de acreditar que Deus criou o mundo e tudo o que existe nele. Coisa bem diferente é querer impingir essa maneira de enxergar a natureza às crianças em idade escolar, renegando fatos comprovados pela ciência. Essa atitude nega às crianças os fundamentos da razão, substituindo-os pelo pensamento sobrenatural.
Manda o bom senso que não se misturem ciência e religião. A primeira perscruta os mistérios do mundo físico; a segunda, os do mundo espiritual. Elas não necessariamente se eliminam. Há cientistas eminentes que creem em Deus e não veem nisso nenhuma contradição com o darwinismo. O mais conhecido deles é o biólogo americano Francis Collins, um dos responsáveis pelo mapeamento do DNA humano. Diz ele: "Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. A Bíblia não é um livro científico. Não deve ser levado ao pé da letra". A Igreja Católica aceitou há bastante tempo que sua atribuição é cuidar da alma de seu 1 bilhão de fiéis e que o mundo físico é mais bem explicado pela ciência. O Vaticano até organizará em março o simpósio "Evolução biológica: fatos e teorias – Uma avaliação crítica 150 anos depois de A Origem das Espécies".
Em A Origem das Espécies, num raciocínio que cabe em poucas linhas mas expressa ideias de alcance gigantesco, Darwin produziu uma revolução que alteraria para sempre os rumos da ciência. Ele mostrou que todas as espécies descendem de um ancestral comum, uma forma de vida simples e primitiva. Darwin demonstrou também que, pelo processo que batizou de seleção natural, as espécies evoluem ao longo das eras, sofrendo mutações aleatórias que são transmitidas a seus descendentes. Essas mutações podem determinar a permanência da espécie na Terra ou sua extinção – dependendo da capacidade de adaptação ao ambiente. Uma década depois da publicação de seu livro seminal, o impacto das ideias de Darwin se multiplicaria por mil com o lançamento de A Descendência do Homem, obra em que mostra que o ser humano e os macacos divergiram de um mesmo ancestral, há 4 milhões de anos.
O embate entre evolucionistas e criacionistas teria causado um desgosto profundo a Darwin, que era religioso e chegou a se preparar para ser pastor da Igreja Anglicana. Esse plano foi interrompido pela fantástica aventura que protagonizou entre 1831 e 1836, em viagem a bordo do Beagle, um pequeno navio de exploração científica, numa das passagens mais conhecidas da história da ciência. Aos 22 anos, Darwin embarcou no Beagle para servir de acompanhante ao capitão do barco, o aristocrata inglês Robert Fitzroy. Durante a viagem, que se estendeu por quatro continentes, Darwin deu vazão à curiosidade sobre o mundo natural que o acompanhava desde a infância. Até a volta à Inglaterra, havia recolhido 1 529 espécies em frascos com álcool e 3 907 espécimes preservados. Darwin escreveu um diário de 770 páginas, no qual relata suas experiências nos lugares por onde passou. No Brasil, visitou o Rio de Janeiro e a Bahia, extasiando-se com a biodiversidade da Mata Atlântica – mas ficou horrorizado com a escravidão e com a maneira como os escravos eram tratados.
Frans Lanting/Corbis/Latinstock
O pescoço da girafa
Anterior a Darwin, o naturalista francês Lamarck elaborou a primeira teoria da evolução. Para ele, o pescoço da girafa teria esticado para colher folhas e frutos no alto das árvores. A seleção natural de Darwin explica melhor: em grandes períodos de seca, só os animais de pescoço mais longo conseguiam se alimentar, o que favoreceu a reprodução dos pescoçudos
Durante a viagem, Darwin fez as principais observações que o levariam a formular a teoria da evolução pela seleção natural. Grande parte delas teve como cenário as Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico. Lá, reparou que muitas das espécies eram semelhantes às que existiam no continente, mas apresentavam pequenas diferenças de uma ilha para outra. Chamaram sua atenção, principalmente, os tentilhões, pássaros cujo bico apresentava um formato em cada ilha, de acordo com o tipo de alimentação disponível. A única explicação para isso seria que as primeiras espécies de animais chegaram às ilhas vindas do continente. Depois, desenvolveram características diferentes, de acordo com as condições do ambiente de cada ilha. Era a prova da evolução. Mais recentemente, ao estudarem os mesmos tentilhões das Ilhas Galápagos, grupos de biólogos observaram a evolução ocorrer em tempo real. Os pássaros evoluíam de um ano para outro, de acordo com as mudanças nas condições climáticas da ilha. Darwin, que definiu a evolução como um processo invariavelmente longo, através das eras, ficaria espantado com as novas descobertas em seu parque de diversões científico.
Ao retornar à Inglaterra, após a viagem do Beagle, Darwin foi amadurecendo a teoria da evolução e começou a escrever A Origem das Espécies dois anos depois, em 1838. Só publicou o volume, no entanto, após 21 anos. Ele sabia do potencial explosivo de suas ideias na ultraconservadora Inglaterra do século XIX – da qual, ele próprio, era um legítimo representante. Elaborar uma teoria que ia contra os dogmas da Bíblia era, para Darwin, motivo de enorme angústia. Não colaboravam em nada os temores de sua mulher, Emma, de que, por causa de suas ideias, Darwin fosse para o inferno após a morte, enquanto ela iria para o céu – com isso, eles estariam condenados a viver separados na vida eterna. Darwin nunca declarou que a Bíblia estava errada. Manteve a fé religiosa até os últimos anos de vida, quando se declarou agnóstico – segundo seus biógrafos, sob o impacto da morte da filha Annie, aos 10 anos de idade.
Após o lançamento de A Origem das Espécies, um best-seller que esgotou rapidamente cinco edições, os cientistas não demoraram a aceitar a proposta de que as plantas e os animais evoluem e se modificam ao longo das eras. Na verdade, essa ideia chegou a ser formulada por outros cientistas, inclusive pelo avô de Darwin, o filósofo Erasmus Darwin. A noção de que a evolução das espécies se dá pela seleção natural, no entanto, é original de Charles Darwin, e só foi aceita integralmente depois da descoberta da estrutura do DNA, em 1953. Darwin atribuiu a transmissão de características entre as gerações a células chamadas gêmulas, que se desprenderiam dos tecidos e viajariam pelo corpo até os órgãos sexuais. Lá chegando, seriam copiadas e passadas às gerações seguintes. Os estudos feitos com ervilhas pelo monge austríaco Gregor Mendel na segunda metade do século XIX, mas aos quais a comunidade científica só deu importância no início do século XX, estabeleceram a ideia básica da genética moderna, a de que as características de cada indivíduo são transmitidas de pais para filhos pelo que ele chamou de "fatores", e hoje se conhece como genes. Com as ervilhas de Mendel, o processo concebido por Darwin teve comprovação científica. A descoberta da dupla hélice do DNA, pelos cientistas James Watson e Francis Crick, em 1953, finalmente esclareceu o mecanismo por meio do qual a informação genética é transmitida através das sucessivas gerações. Hoje, os biólogos se dedicam a responder a questões ainda em aberto no evolucionismo, como quais são exatamente as mudanças genéticas que provocam as adaptações produzidas pela seleção natural. É espantoso que, enquanto continuam a desbravar territórios na ciência, as ideias de Darwin ainda despertem tanto temor.
Com reportagem de Leandro Narloch, Paula Neiva e Renata Moraes
fonte:http://veja.abril.com.br/110209/p_072.shtml
A evolução, com a bênção do papa: Discurso criacionista faz a Santa Sé e a
O reverendo anglicano Michael Reiss cometeu uma heresia. Em discurso na Inglaterra, há duas semanas, ele sugeriu que a teoria da evolução, de Charles Darwin, deveria ceder ao criacionismo parte de seu espaço no currículo escolar básico. O que se seguiu ao pronunciamento foi uma tempestade pública que só amainou com a demissão sumária de Reiss do cargo de diretor de educação da Royal Society, a mais prestigiada sociedade científica da Inglaterra. O episódio deu a oportunidade para duas das mais importantes confissões cristãs reiterarem seu apoio à teoria da evolução de Darwin. O primeiro veio da Igreja Anglicana, na qual o naturalista inglês foi batizado, que pediu perdão pela posição contrária de alguns de seus clérigos – mas não da instituição, que jamais o condenou – em relação a suas idéias: "Duzentos anos após seu nascimento, a Igreja da Inglaterra lhe deve desculpas pelos mal-entendidos". O segundo veio do presidente do Conselho para a Cultura do Vaticano, Gianfranco Ravasi, que reafirmou que não há contradições entre o evolucionismo e as idéias católicas.
The Bridgeman Art Library/Getty Images
A ORIGEM DO HOMEM
Caricatura de Darwin do século XIX: controvérsia no clero
A Igreja Católica jamais condenou formalmente a teoria de Darwin, embora tenha mostrado certa relutância em aceitá-la nas primeiras décadas após a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A retomada das descobertas genéticas do monge austríaco Gregor Mendel, no século XX, permitiu à ciência comprovar a teoria evolucionista – até então controversa e puramente abstrata. Em 1950, o papa Pio XII afirmou que não há contradição entre a evolução e a doutrina cristã, posição reforçada por João Paulo II, em 1996. "Os primeiros mal-entendidos a respeito da aceitação da teoria da evolução pela doutrina católica referem-se a uma interpretação literal da narração bíblica da criação", disse a VEJA Rafael Martínez, sacerdote espanhol e professor de história da ciência da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma. "Hoje sabemos que a sabedoria divina criou o mundo utilizando as forças da natureza."
A aversão atual às idéias de Darwin deve-se a um grupo de religiões, como algumas confissões de batistas, metodistas e pentecostais, que permanece preso à leitura ao pé da letra da origem do universo contida na Bíblia. São os criacionistas, um grupo minoritário, mas bem instalado em algumas regiões dos Estados Unidos. Felizmente, sua influência é diminuta fora do país, exceto por alguns casos pontuais, como o de Michael Reiss. Que assim continue.
fonte:http://veja.abril.com.br/240908/p_115.shtml
The Bridgeman Art Library/Getty Images
A ORIGEM DO HOMEM
Caricatura de Darwin do século XIX: controvérsia no clero
A Igreja Católica jamais condenou formalmente a teoria de Darwin, embora tenha mostrado certa relutância em aceitá-la nas primeiras décadas após a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A retomada das descobertas genéticas do monge austríaco Gregor Mendel, no século XX, permitiu à ciência comprovar a teoria evolucionista – até então controversa e puramente abstrata. Em 1950, o papa Pio XII afirmou que não há contradição entre a evolução e a doutrina cristã, posição reforçada por João Paulo II, em 1996. "Os primeiros mal-entendidos a respeito da aceitação da teoria da evolução pela doutrina católica referem-se a uma interpretação literal da narração bíblica da criação", disse a VEJA Rafael Martínez, sacerdote espanhol e professor de história da ciência da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma. "Hoje sabemos que a sabedoria divina criou o mundo utilizando as forças da natureza."
A aversão atual às idéias de Darwin deve-se a um grupo de religiões, como algumas confissões de batistas, metodistas e pentecostais, que permanece preso à leitura ao pé da letra da origem do universo contida na Bíblia. São os criacionistas, um grupo minoritário, mas bem instalado em algumas regiões dos Estados Unidos. Felizmente, sua influência é diminuta fora do país, exceto por alguns casos pontuais, como o de Michael Reiss. Que assim continue.
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